Notas Nexialistas · Educação

O aluno aceita a missão. Por que a escola tem medo?

Carlito Junior BAESSA2 min de leitura

Quando o aluno entra no jogo, ele aceita a missão, erra, recebe feedback na hora e tenta de novo, sem ninguém mandar. Na sala de aula, a mesma pessoa espera semanas por uma nota que diz pouco sobre o que ela aprendeu.

Essa comparação me persegue desde que comecei a desenhar a Academia Nexial.

Jogo não é o oposto de estudo sério

Itabira transformou o poema "A Máquina do Mundo", de Drummond, em desafios interativos com lugares da cidade. O Instituto Feira Preta lançou missões de empreendedorismo e educação financeira dentro de um jogo. E o Google vai trazer ao Brasil uma formação gratuita de professores em IA com jogos pedagógicos, não para ensinar a usar IA, mas para ensinar a desconfiar dela na medida certa.

E gamificar não depende de tela. Missão, desafio em grupo, pistas e etapas cabem em papel e conversa, da educação infantil ao Enem. Gamificar não é trocar a aula por diversão. É levar para a aula a lógica que faz alguém tentar de novo.

O tempo do professor

Uma plataforma portuguesa de avaliação digital estima ter poupado 165 mil horas de trabalho docente em um ano letivo. O número que me interessa não é o da rodada de investimento. É o das horas. Corrigir, lançar nota e preencher planilha come o tempo que deveria ir para o feedback rápido e a conversa sobre o erro.

Mas cuidado com o painel. Um projeto de sala de aula com câmeras e IA para estimar engajamento lembra que usar o celular pode ser fazer uma conta, e olhar para o quadro não garante atenção. Comportamento observado é sinal, não medida de aprendizagem.

A porta de entrada

Do outro lado, os números de empregabilidade são duros. Na EAD, 41,6% abandonam a graduação, contra 24,8% no presencial. A questão financeira responde por 70% dos trancamentos, e quando o estudante já estagia a chance de trancar cai 20%. Para 47,5% dos jovens, a falta de experiência é a principal barreira para o primeiro bom emprego. E só 52% dos universitários brasileiros se sentem preparados para um mercado com IA.

A empresa pede experiência, a faculdade entrega o diploma e o jovem fica no meio. Evasão e estágio são o mesmo problema, olhado por áreas diferentes.

Talvez a pergunta não seja se o jogo cabe na escola. Talvez seja quanto tempo mais a escola aguenta sem ele.