Notas Nexialistas · Tech
Da IA de vitrine à IA de chão de fábrica
Nos últimos tempos vejo muita gente tratando a inteligência artificial como quem compra um motor de Fórmula 1 e tenta parafusar no chassi de um carrinho de mão. O motor ronca bonito na demonstração. Na primeira curva com carga, a estrutura entorta.
Escrevo há meses as Crônicas de CIO no LinkedIn, e quando junto tudo o padrão aparece com clareza.
Produtividade pessoal não é resultado
O State of AI 2026 da McKinsey é direto: 80% dizem que a IA melhorou a produtividade individual, mas só 37% atribuem a ela algum efeito positivo no EBIT. Cerca de 6% são de fato high performers. No Gartner, só 13% dos CIOs dizem ter obtido valor significativo. Numa cooperativa agroindustrial, uma planilha mais rápida no escritório não paga a conta. Prova de conceito não paga a conta. Segundo a OCB, 59,7% das cooperativas já contrataram ou desenvolveram IA. O desafio agora é escalar o que dá resultado.
Comprar IA é fácil. Redesenhar o trabalho é que dói.
Todo agente precisa de crachá e de chefe
O Gartner prevê que até 2027, 40% das empresas vão rebaixar ou desligar agentes autônomos por falhas de governança descobertas só depois do incidente. Minha regra como CAIO é simples: a gente não implanta "bots". A gente integra trabalhadores digitais, com crachá, chefe e critério para desligar. E a habilidade mais subestimada de um CIO é justamente saber quando desligar. Só 31% têm critério para parar um piloto antes da produção.
Agentes também dependem do encanamento: APIs, dados mestres, identidade e acesso. Um agente rodando em cima de um core bagunçado só automatiza a bagunça. Clean core primeiro, dado confiável antes do agente.
A porta que ficou aberta
O ransomware não escolhe cooperativa pelo nome. Escolhe pela porta que ficou aberta. O setor de alimentos sofreu 227 ataques até julho de 2026, alta de 62%, e muitos começam com uma senha roubada, não com uma invasão sofisticada. Aquela extensão "rapidinha" que alguém instalou para automatizar a planilha é parte da superfície de ataque.
O orçamento que muda sem eu assinar nada
Num único dia, o dólar subiu 8,36% e a parte em dólar do meu orçamento de TI ficou mais cara sem eu assinar nada. Licença, nuvem, hardware e ERP respiram com o câmbio. E o token barato de hoje é o subsídio de amanhã: os preços de memória mais que dobraram em 12 meses. Quem planejar 2027 com a régua de 2026 vai errar a conta.
Por que isso importa no agro
A safra é incerta. A indústria não pode ser. Quando campo, fábrica e mercado conversam, a agroindústria estabiliza a renda do cooperado, e aí a TI deixa de ser apoio e vira espinha dorsal.
A IA de vitrine impressiona no slide. A de chão de fábrica aparece no balanço. Eu fico com a segunda, mesmo que ela dê menos foto.