Notas Nexialistas · Advisory
A IA chegou ao conselho antes da regra
Toda empresa sabe quem pode assinar um contrato ou aprovar um gasto. Quase nenhuma sabe o que o seu agente de IA pode decidir sozinho. Foi essa frase que ficou comigo depois de uma semana lendo pesquisas de governança, e ela não me larga.
O conselho supervisiona a IA da empresa, e a da própria mesa?
Segundo a pesquisa da FGVethics com o IBGC, 93% dos conselheiros acham necessário entender de IA, e só 31% receberam treinamento específico. A BDO mostra que 82% já usam IA no trabalho de conselho, mas 69% não têm política formal para isso. Ou seja: cobramos governança da empresa e ainda não temos regra para a IA que resume o material da nossa própria reunião.
Um conselheiro que não sabe questionar um modelo acaba só carimbando o que ele recomenda. A tecnologia não tira a responsabilidade de ninguém. Ela aumenta a responsabilidade de quem vota.
Alçada, detectabilidade e pausa
Juntando o que li, três ferramentas simples resolvem boa parte do problema:
- Alçada para agentes. Tratar cada agente como uma linha da matriz de alçadas, com limite, um responsável humano e a possibilidade de revogar a permissão. Autonomia sem alçada não é inovação, é risco sem dono.
- Detectabilidade. Além de probabilidade e severidade, perguntar: quão difícil seria perceber o problema antes do dano? Com IA, o risco costuma morar na camada que liga o modelo aos dados e às permissões.
- Pausa. Quanto mais convincente o relatório gerado por IA, mais necessária é a pausa: um espaço proporcional ao tamanho e à reversibilidade da decisão para examinar premissas e combinar, antes, o que faria a decisão ser revista.
Sucessão é rotina, não evento
O mesmo raciocínio vale para gente. Só 16,1% dos CEOs dizem ter alguém pronto para o lugar deles, e 72,4% das empresas familiares de capital fechado não têm plano de sucessão para cargos-chave. A Korn Ferry mostra que 60% dos conselhos acham que sucessão funciona melhor como processo contínuo, mas só 17% revisam o plano a cada trimestre.
E aqui entra um dado que me interessa por causa do Prisma: o traço que leva alguém ao cargo de líder, a assertividade, não aparece associado à liderança eficaz. O que pesa é motivação para realizar, ordem, autodisciplina e otimismo. Sucessão boa observa, por anos, como cada pessoa decide e reage à pressão, e não só o resultado do último ciclo.
A pergunta que eu levaria ao próximo board
Raramente falta informação para decidir. Falta dono, prazo e critério combinados antes da reunião. Velocidade sem critério vira aposta; critério sem velocidade vira ata.
Se eu tivesse cinco minutos na próxima reunião de conselho, gastaria todos numa pergunta só: o que a nossa IA pode decidir sem nós, e como saberíamos que ela errou?